O economista André Lara Resende rejeitou os boatos de que teria se reunido ou negociado cargos no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo um dos formuladores do Plano Real, a repercussão gerada por seu artigo publicado no Substack em setembro — que sugere a criação de um novo órgão para gerir as políticas monetária e fiscal — faz parte de uma disputa de narrativas.
“Não falei com o presidente Lula, não tenho nem tive contato com ele, assim como não tenho nada marcado [para apresentar a ideia a ele]. Essa notícia foi plantada obviamente para queimar a proposta ou [prejudicar] alguém que não eu, porque todo mundo sabe que eu não quero ir para o governo — incluindo o próprio Lula”, afirma.
“Estão queimando alguém que defendeu essa proposta, uma briga interna dentro do governo na qual eu entrei como Judas no Pai Nosso”.
Contexto da proposta econômica
O debate ganhou força após a deputada federal Gleisi Hoffmann compartilhar o texto da newsletter. O mercado financeiro reagiu com temor de que a autonomia do Banco Central fosse esvaziada para forçar a queda da Selic. Para Lara Resende, o foco na contenção de gastos públicos ignora a raiz do problema fiscal brasileiro, que seria o impacto dos juros elevados sobre a dívida.
O especialista classifica o pagamento de juros da dívida pública como uma transferência de recursos para a parcela mais rica da sociedade.
“É uma ‘bolsa-rentista’: juros da dívida pública pagos aos detentores da dívida que são também a parcela mais rica da população. Juros altos é um fator concentrador de renda e riqueza”.
Detalhes do Conselho Fiscal e Monetário
A proposta central do economista consiste na criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), um órgão com participação de especialistas e representantes do governo e do Banco Central. A instituição teria a atribuição de estipular metas de longo prazo para a condução fiscal e para a taxa básica de juros, auxiliando na previsibilidade econômica.
A criação de um conselho institucional, contudo, exigiria aval do Congresso, já que o Banco Central detém autonomia operacional apenas para instituir comitês consultivos. A ideia também enfrentou ceticismo internacional, como o apontado pelo economista americano John Cochrane, que classificou a iniciativa como teórica.
Lara Resende rebateu as críticas comparando a resistência atual à recepção inicial da Unidade Real de Valor (URV) na transição para o Plano Real. Ele também pontuou que a menção a uma taxa de 7,5% ao ano em seu artigo original servia apenas como diretriz indicativa.
“[Esses números] são meramente indicativos. A trajetória e o ritmo [da taxa básica de juros] devem ser avaliados ao longo da implantação da proposta de acordo com a evolução das circunstâncias”, continua.
Perspectivas e ajustes futuros
Diante das críticas de que a redução acelerada da taxa básica de juros poderia pressionar a inflação ou provocar fuga de capitais, o economista argumenta que o país possui sólidas reservas internacionais e superávit comercial robusto, o que mitigaria riscos externos significativos.
Para o especialista, a persistência de juros reais elevados no Brasil resulta de uma combinação entre dogmatismo econômico, interesses consolidados do setor financeiro e falhas na compreensão dos mecanismos macroeconômicos contemporâneos.







